El Niño acende alerta para safra brasileira e pode pressionar preço dos alimentos

Previsão de fenômeno muito forte preocupa economistas, produtores e analistas pelo risco de perdas na soja, milho, arroz e café

A possibilidade de um El Niño muito forte voltou a preocupar o agronegócio e entrou no radar de economistas pelo impacto que o fenômeno pode causar na produção agrícola e na inflação dos alimentos. De acordo com previsões da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, há 63% de chance de o evento climático ser classificado nessa intensidade.

O alerta ocorre porque, no ciclo 2023/24, quando o El Niño foi forte, o Brasil registrou perda de 8,2% na safra. Caso uma redução semelhante se repita, os efeitos podem atingir os estoques globais de grãos e pressionar os preços dos alimentos. A preocupação é maior porque o cenário atual já envolve dificuldades para produtores, com crédito mais restrito, margens menores e incertezas no comércio internacional.

Segundo José Carlos Hausknecht, sócio em agronegócios da consultoria EY Brasil, ainda há muita incerteza sobre os efeitos do fenômeno, já que cada El Niño apresenta impactos diferentes. Mesmo assim, ele avalia que existe risco de perda de produtividade, especialmente em um momento considerado delicado para o produtor rural. O especialista também cita possíveis taxações dos Estados Unidos sobre produtos importados do Brasil e o ambiente geopolítico incerto como fatores que pioram as perspectivas para o setor.

Os efeitos do El Niño variam conforme a região. No Centro-Oeste e no Matopiba, área formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o fenômeno costuma provocar chuvas irregulares e veranicos prolongados, o que pode comprometer a produtividade da soja e atrasar o plantio da segunda safra de milho. No Sul, a tendência é de chuva acima da média, cenário que pode favorecer a produtividade da soja e do milho, mas também aumenta o risco de enchentes e de doenças nas lavouras.

Questão econômica

Relatório do Itaú BBA aponta que o Brasil aparece como principal fator de risco para o mercado global, por causa da relevância crescente do país na oferta internacional de grãos e da variação dos impactos climáticos entre as regiões produtoras. Apesar do alerta, o banco ainda trabalha com um cenário-base de nova safra recorde de soja no Brasil, estimada em 182,4 milhões de toneladas.

A avaliação dos analistas, no entanto, mostra que uma quebra de 6% na produção brasileira já seria suficiente para reduzir os estoques globais ao menor nível desde a safra 2023/24. Nesse cenário, a relação entre estoque e consumo cairia de 28% para 23%, indicando menor margem de abastecimento diante da demanda atual.

Francisco Queiroz, especialista da consultoria Agro do Itaú BBA, afirma que a projeção de safra recorde permanece porque a área plantada de soja no país deve crescer 0,5% neste ano e porque ainda não há definição concreta sobre a intensidade do El Niño. O fenômeno é considerado muito forte quando eleva a temperatura das águas do Oceano Pacífico em mais de 2°C, classificação que deve ser feita pelos cientistas no fim de julho.

A preocupação também envolve a segunda safra de milho, conhecida como safrinha. Caso o plantio atrase, as lavouras ficam mais expostas a altas temperaturas e ao déficit hídrico. Na safra 2015/2016, período em que houve um El Niño classificado como muito forte, a produtividade da safrinha caiu mais de 20% no Brasil. No Matopiba, a redução passou de 40%.

Além da soja e do milho, arroz e café também podem ser afetados. No arroz, o risco está ligado ao excesso de chuvas no Sul do país, que prejudica a produção. No café, a irregularidade das chuvas e o aumento do estresse térmico podem afetar a floração, reduzir a produtividade e comprometer a qualidade dos grãos. No El Niño de 2023/24, o café conilon do Espírito Santo registrou as maiores perdas no país.

Sem alarde

O coordenador do FGV Agro, Guilherme Bastos, lembrou que, em 2023, quase 3 milhões de hectares precisaram ser replantados por causa da distribuição anormal de chuvas. Para ele, o impacto não se limita à produtividade, já que o replantio também eleva os custos da lavoura. Bastos pondera, porém, que o fenômeno não deve provocar um colapso na produção brasileira, porque os efeitos negativos em algumas regiões podem ser compensados por resultados melhores em outras.

O pesquisador do Observatório de Bioeconomia do FGV Agro Eduardo Assad também avaliou que não se deve tratar o tema de forma alarmista, embora reconheça que, em safras anteriores prejudicadas pelo El Niño, as perdas no Brasil chegaram perto de 10%.

Facebook
Twitter
WhatsApp

Leia Também