Trabalho com pesquisas de opinião pública em Mato Grosso do Sul há muitos anos. Já vi governantes subirem e descerem as rampas dos palácios, mas existe uma constante que rasga o peito do nosso povo: o clamor desesperado pela Saúde. Não se trata de um número estatístico frio; é o grito de quem tem pressa e fome de dignidade.
A saúde é tão vital que decidiu o governo estadual em 2022. No último debate da TV Morena, o domínio técnico encurralou as respostas genéricas. Ali, o eleitorado escolheu o projeto da eficiência. O tempo passou. Estamos em 2026, as urnas batem à porta novamente e a pergunta que pulsa no coração de cada sul-matogrossense é: o que de fato melhorou?
A dor que não pode esperar
Enquanto prefeitos, vereadores e secretários se reúnem em exaustivos congressos e feiras agrícolas, eu me pergunto: por que não há um encontro emergencial para resolver as feridas da nossa saúde? Falta dinheiro ou falta organização?
Em resposta oficial na Assembleia Legislativa, o Governo do estado se manifestou no mês de abril, em cumprir os 12% mínimos exigidos pela Constituição Federal. Como o ano de 2026 ainda não terminou, com certeza irá cumprir a legislação. Afinal, cada porcentagem que falta na planilha se traduz em uma rotina humilhante: madrugadas ao relento, filas quilométricas, exames que demoram tanto que chegam quando o câncer já avançou e mortes que poderiam ser evitadas.
A perda de alguém que amamos deixa uma ferida eterna. Mas a saúde não deve ser apenas para evitar a morte; ela deve ser a celebração da vida! O povo de Mato Grosso do Sul tem uma vontade imensa de viver, de trabalhar e de ver seus filhos crescerem com energia. É essa vitalidade que precisa ser respeitada acima de tudo.
A dor humana como moeda de troca
Esse cenário de profunda preocupação ganhou contornos aterrorizantes com a recente Operação Gutenberg, deflagrada pelo Gaeco do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). É de embrulhar o estômago: a investigação aponta que servidores do Complexo Regulador Estadual (Core) e empresários usavam a dor de quem aguardava atendimento médico como moeda de troca para faturar milhões.
O mecanismo era de uma crueldade sem limites: eles seguravam a liberação de exames e leitos de pacientes do interior e chantageavam as prefeituras. Para que o cidadão fosse transferido para a Capital, o município era forçado a comprar livros paradidáticos de editoras envolvidas, com dispensa de licitação. Estima-se que o esquema tenha movimentado mais de R$ 27 milhões. O Gaeco já cumpriu mandados de prisão em Campo Grande, Dourados e Porto Murtinho, e o Estado exonerou os envolvidos.
Embora os investigados tenham direito à ampla defesa, a simples existência dessa suspeita destrói o pilar mais sagrado do SUS: a confiança de que a fila é estritamente técnica e justa. A última pesquisa do Instituto Ranking Brasil Inteligência (BR-MS-06874/2026 e BR-03768/2026) escancara essa ferida: 34,6% apontam a falta de médicos como o maior problema do Estado; 28% citam a falta de remédios e exames; e 24,8% apontam a corrupção generalizada. Diante disso, o grito de socorro do cidadão ecoa: “Você quer comprar livros? Não! Eu quero saúde, eu quero viver!”
A esperança
O investimento em hospitais regionais e na telemedicina merece reconhecimento. Mas o avanço real mede-se na ausência de dor na vida das pessoas. Qualquer tijolo levantado se torna pó se a estrutura moral estiver corrompida.
A crise que vivemos não é apenas administrativa; ela é moral e humanitária. Mas é na indignação que encontramos a força da esperança. A verdadeira esperança é ativa: é a certeza de que Mato Grosso do Sul tem cura e tem futuro. As eleições de 2026 estão aí, e o voto é a nossa arma mais poderosa para exigir dignidade.
Não vamos aceitar o inaceitável. Devemos transformar a indignação em ação, limpando a saúde pública da corrupção e garantindo que cada cidadão seja atendido com o respeito que merece. A fila da saúde precisa ser justa, técnica e humana. Chega de usar a dor do povo como mercadoria. Nós queremos saúde e vida em abundância.
Por Antonio Ueno – Cientista Político




